O Angkor Wat

Quando se pensa em Camboja é inevitável, logo vem à mente o templo de Angkor Wat. Os extensos muros, inconfundíveis torres e o espelho d’água que nos da a sorte de poder ver um segundo sol nascendo por trás do templo.

Muito não fica claro e principalmente se comete uma injustiça tremenda com o que vemos em imagens por aí sobre este lugar. Tão impactante quanto as torres, que vemos ainda pequenas por cima dos muros externos do complexo lá de fora ao chegar, é a realização do tamanho da ilha onde Angkor Wat fica.

A ilha é cercada por um lago quadrado artificial, com um quilômetro e meio em cada lado. Se chega à ela por uma passarela de quase duzentos metros com doze de largura. Ao tomar a reta, o muro frontal que circunda a ilha vai se agigantando com suas três torres de entrada, fazendo sumir as mais famosas do templo central pelo topo do seu telhado.

Passando pelos estreitos corredores que cortam os muros de acesso, a paisagem se forma ao fundo da moldura de pedra das passagens para enorme jardim, como uma pintura sendo feita bem diante dos olhos ainda acostumados com a pouca luz do amanhecer.

O céu, que por trás da detalhada silhueta das torres do templo, começa a incendiar o fim da agora levemente roxa noite. O fôlego vai escapando a cada centímetro que o o sol ganha acariciando o topo do Angkor. Um espetáculo que se repete todos os dias do ano, com o complexo perfeitamente alinhado de oeste a leste com as brisas da rosa dos ventos.

Como foi dito: é inevitável. Inevitável falar sobre a antiga capital do Império Khmer que guardava não só a ilha, mas também o maior monumento religioso já construído. Mas, nos arredores de Angkor Wat, existe o complexo de Angkor com 200 quilômetros quadrados com vistas e construções que nunca um texto e nem mesmo fotos farão jus.

Angkor Além de Angkor Wat

Ainda no século XII, no apogeu do Império, a capital foi transferida de local. Um pouco mais ao norte, não mais do que dois quilômetros. Alí, foi construído o complexo de Angkor Thom. Se Angkor Wat já impressionava com a ilha de quase 2 quilômetros quadrados, agora falamos de outra maior, dessa vez com 3 quilômetros de comprimento em cada face da sua forma quadrada, também de frente para os pontos cardeais.

Os pórticos de cada ponte de entrada já servem de aviso para as maravilhas que estão por trás dos muros. De cada lado da ponte correm esculturas de pedra da serpente do conto do Batimento do Oceano, de um lado puxada por devas de outro pelos asuras. A estreita passagem é por uma torre de mais de trinta metros de altura, com detalhadas esculturas de faces viradas para os quatro lados. A riqueza de detalhes é impressionante. Ao lado dos portões, três esculturas de elefantes de cada lado guardam a entrada, com suas trombas formando colunas tão grandes por onde se pode caminhar.

O caminho segue por uma densa floresta com macacos malandros e árvores gigantes, que acompanham a estrada até um outro templo ir se revelando dentre os galhos que aliviam o forte e melado calor. Bem no centro do complexo, fica o templo de Bayon. Se não tem o tamanho do templo de Angkor Wat, em nada deve com seu hipnotizador capricho arquitetônico. Sem grandes muros, o templo faz emergir cinquenta e quatro torres simétrica e harmonicamente dispostas pelo templo.

No topo de cada uma, lá temos quatro faces esculpidas. Basta subir um lance de escadas e ficar cara a cara com alguma delas. Mas nenhuma foi esculpida direto na pedra. Elas são lapidadas em pequenos cubos e empilhados. A frente de cada cubo exposta está entalhada como uma peça de um pesado e preciso quebra cabeças suspenso. Corredores apertados, escadas íngremes e pequenos pátios se entranham entre as torres e às vistas das duzentas e dezesseis faces montadas.

Quase mil anos passados, invasões, transferências de poder e a ação do tempo fizeram construções de madeira e materiais mais frágeis deixarem esses monumentos de pedra sozinhos na selva. Nas épocas mais úmidas, vemos os templos, palácios, pontes e pórticos  que resistiram, contrastarem e ganharem vida com a relação simbiótica com a natureza. A grama toma conta do chão e da copa das árvores que cobrem e fazem o topo de templos enormes sumirem no verde das florestas. O mesmo verde que vem colorir os muros e rostos de pedra com a pigmentação dos musgos.

O altar do casamento entre a natureza e o complexo de Angkor fica uns dois quilômetros do portão oeste da maior e última capital Khmer. O templo de Ta Phrom foi erguido em homenagem à mãe do rei que transferiu o centro do Império para Angkor Thom. Sua construção é comprida, atravessada quase como um corredor. Para onde se olha, seguimos acompanhados das faces encaixadas. Galerias com oferendas e passagens bloqueadas por muros que não suportaram os séculos.

Mas o cenário que esse templo esconde é  algo que supera as expectativas  até mesmo dos mais aventureiros. De uma semente no lugar certo e na época certa, temos alguns muros e estruturas que por muitas vezes parecem gritar por socorro por não suportarem mais o peso das árvores que em seus ombros cresceram. Árvores enormes, com grossas e fortes raízes, que descem dos muros e seguem o caminho que encontram pela frente.

Umas cobrem as fachadas dos muros na horizontal, numa tentativa de marquise feita pela própria natureza. Outras descem pelos batentes de portas e portões fazendo verdadeiras molduras e ornamentando as passagens rochosas. Algumas descem pelas paredes e chegam a tocar o chão. O mesmo se repete em Preah Khan, templo construído dessa vez para homenagear o pai do rei Jayavarman VII.

Cercado por água e a mesma representação das pontes de Angkor Thom, o templo também tem raízes que parecem descer do céu. Lá, com árvores ainda maiores do que no templo da mãe. Algumas vezes, as próprias raízes que parecem depredar os muros são as responsáveis por ainda estarem de pé. Muros milenares ainda poupados pelo abraço de árvores em que quase não se vê o topo.

Roteiros?

Tours guiados são sempre úteis, mas uma vez nesse lugar, me sinto na obrigação de avisar: não deixa de tirar um dia inteiro por conta própria nesse verdadeiro museu. Não importa quanto tempo fique em Siem Reap. Uma moto automática, óculos, filtro, um mapa e uma garrafa d’água congelada da noite anterior. Não será preciso nada além disso para descobrir o que esse lugar esconde. Desta vez, ignora o óbvio. Passa no templo de Angkor Wat a tarde, quando as excursões do sol nascente já se foram e entra pra procurar procurar um dos pátios internos. Senta e deixa as pedras já geladas te resfriarem enquanto ouve o canto dos monges que parece correr bem rente as paredes ecoar pelos corredores.

Esquece da ordem já decorada dos small e big tours. Lembra daqueles lugares que pareciam te chamar pra voltar desde os primeiros dias. Toca nas raízes da árvores, chega bem perto das cenas esculpidas nos muros. Vai ler a história escrita por eles. Aquele templo menor, que você não deu muita bola entre as atrações principais. Volta nele! Sabe que vai estar vazio. Encosta a moto, senta na frente de um santuário com a imagem de Buda, tira os sapatos e sente o chão. Poucos lugares no mundo vão trazer tanta tranquilidade quanto o fechar dos olhos alí sozinho.

Puxa o ar bem fundo, olha pra cima, lá pra copa das árvores. Tenta entender que esse Império aconteceu há mais de mil anos. Nessa mata fechada, a quilômetros de distância de lagos. Realizar que poucas cidades européias tinham tantos milhões de habitantes no nosso entendimento do que era um civilização, quanto a capital Khmer. Elefantes, monges e templos que até hoje lá continuam e que dependendo do respeito e da forte preservação, continuarão por muitas mais eras a nos encantar.

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